terça-feira, 29 de abril de 2008

Cavalhada

O Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, registra cavalhada como desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogos de canas, jogo de argolinhas. De origem ibérica, a cavalhada ou argolinha recorda os torneios eqüestres medievais. Chegou primeiro nos romanos, depois a Portugal e, daí foi importada para o Brasil. Em Portugal, o torneio das cavalhadas era realizado nas festas religiosas ou políticas. Dele participavam os monarcas, com os príncipes e fidalgos da casa real, até tornarem-se um divertimento popular. No Brasil, a participação das classes dominantes também era uma das características das cavalhadas. Foram introduzidas pelos cavaleiros e fidalgos que chegavam com os donatários. Antigamente fazia parte das festividades cívicas e religiosas e depois dos nossos costumes e folguedos populares. No Brasil os mais antigos registros das cavalhadas (argolinhas), remontam às festas públicas promovidas pelo Conde João Maurício de Nassau, no Recife, em janeiro de 1641, na comemoração pela proclamação da restauração de Portugal. Os desfiles de cavalos, corridas de cavaleiros, jogos de canas, manequim, manilhas e argolinhas foram às características trazidas da Europa.A cavalhada aparece principalmente nos estados de Minas Gerais, Bahia, Paraná e Goiás. Com o tempo o modelo original se perdeu. No Norte se tem apenas os desfiles, corridas de cavalos e jogos de argolinhas. A cavalhada é realizada em espaço amplo (praça, descampado ou parque), é constituída por doze cavaleiros ou pares. Os dois pares dianteiros têm o nome de primeiro e segundo matinadores (em outros estados, mantenedores), que são os chefes respectivamente dos cordões encarnado e azul. Os matinadores: devem ser mestres na arte da cavalhada pois, desses últimos, cabe obrigatoriamente a retirada da argolinha, caso não o tenham feito os que os antecedem na corrida.O torneio é dividido em três partes, obrigatoriamente nessa ordem: visita à Igreja(feita à tarde), corrida de argolinhas e escaramuças.Na igreja: Os cavaleiros devidamente paramentados marcham, em dupla fila, na cadência do som da orquestra regional de pífanos e zabumba, conhecida como “Esquenta Mulher”. Em frente à Igreja, eles iniciam o ritual de saudação: tiram os gorros, benzem-se, tiram as facas das bainhas e as beijam como sinal de reconhecimento pela religião que escolheram. Descem de seus cavalos e vão até o altar onde colocam seus buquês com os pedidos ao padroeiro para que o torneio tenha sucesso. Ao fim do ritual de saudação, seguem para o local destinado ao torneio. Acorrida de Argolinha (parte mais emocionante): Antes do torneio a galope, ao se aproximarem das pontas ou fim da pista, dão três voltas por dentro e três voltas por fora dos postes. Dá-se início ao torneio com as corridas de parelhas. Estas são concluídas com a introdução à corrida de argolinhas, que se resume em amarrar a corda aos postes e nela a argolinha é suspensa pela garra. A partir daí, tem início a corrida à argolinha. Acorrida consiste: O cavaleiro, em disparada, deve enfiar a lança no anel de ferro e recolher de lá a argolinha. Todos os aspectos que envolvem a retirada da argolinha (movimentos da lança, firmeza ao apontá-la para a argolinha) são observados para que o mérito e a vitória do cavaleiro sejam aclamados na postura ao realizar a carreira e em alcançar o troféu cobiçado.Após a retirada da argolinha: o cavaleiro deve manter na lança o recebimento dos prêmios, as fitas, cortes de fazenda, xales de valor que são amarrados na lança, concedidos pelos membros da Comissão Julgadora, e no braço esquerdo ou a tiracolo, prêmios dados pelos partidários, amigos, admiradores, parentes. O primeiro prêmio amarrado à lança é destinado ao padroeiro em cuja honra se celebra a festa; os outros, o cavaleiro deve ofertá-los para pessoas de sua amizade ou simpatia. Os do braço ou a tiracolo são do cavaleiro e com ele ficarão até o fim da corrida. Quando chega ao fim o recebimento dos prêmios, o cavaleiro deixa cair a argolinha. Um escudeiro a apanha e a conduz novamente à garra para a próxima corrida (seis ao todo). Na última carreira à argolinha, para se ter direito ao prêmio, é necessário apenas bater na garra, não há a obrigação de enfiar a argolinha na lança. Terminadas as seis carreiras o partido que tiver o maior número de lanças vencerá. Este quantitativo será definido e confirmado por bandeiras colocadas em dois mastros fixados nos dois lados da pista. A última parte do torneio consiste em demonstrações eqüestres, seguindo-se as escaramuças: o oito e noves, os zeros e os biscoutos, cada uma delas com características próprias. O torneio da cavalhada se encerra com a Retirada: os pares se seguram mutuamente às rédeas, fazem um desfile em frente ao palanque e, em sinal de gratidão, beijam e agitam as facas na direção do público. Em algumas cavalhadas, existindo ou não uma procissão, faz-se o Agradecimento, onde o primeiro matinador, diante da Igreja ou do palanque, agradece e abraça todos os companheiros pelos serviços prestados. No início da noite, os cavaleiros recolhem-se às suas casas.

bibliografia
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco